Prêmios Propesq
  • Prêmio Pesquisa de Destaque: projeto descobre respostas sobre o medo e a ansiedade com abordagem inédita

    Publicado em 04/05/2022 às 15:21
     

    Professor Roger Walz liderou pesquisa premiada

    Desenvolver uma abordagem que permite a utilização de amostras de tecido cerebral humano para o estudo de mecanismos envolvidos no medo e na ansiedade, demonstrar de forma inédita a associação entre marcadores neuroquímicos específicos em estruturas cerebrais e manifestações clínicas de ansiedade em seres humanos; ampliar o conhecimento dos mecanismos neuroquímicos envolvidos com transtornos de ansiedade e estresse pós-traumático. Estes foram alguns dos objetivos atingidos pelo projeto Potenciais marcadores de prognóstico e alvos terapêuticos aplicáveis às doenças neurológicas e psiquiátricas, coordenado pelo professor Roger Walz, do Departamento de Clínica Médica, vencedor da categoria livre do Prêmio Pesquisa de Destaque da Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq/UFSC).

    O estudo, focado em detectar marcadores de doenças neurológicas e psiquiátricas, é um dos trabalhos realizados pelo Núcleo de Excelência em Neurociências Aplicadas de Santa Catarina, que trabalha também com pesquisa clínica aplicada. A atuação nessas duas frentes possibilitou uma abordagem inovadora para compreender os mecanismos do medo e da ansiedade, questões que ainda provocam uma série de dúvidas à ciência médica.

    Com essa abordagem, o grupo estudou amostras do tecido cerebral que é retirado dos pacientes submetidos a neurocirurgia de epilepsia, recurso utilizado em pessoas que não respondem a medicamentos. A abordagem é considerada inédita pois uma análise desse tipo só seria possível em cadáveres, mas como a cirurgia extrai o tecido cerebral dos pacientes o material pode ser aproveitado para fins científicos, com todos os procedimentos sendo devidamente monitorados durante a intervenção.

    “Nós investigamos, nesse tecido cerebral, aspectos de neuroquímica, mais especificamente alterações de sinapses que podem ser quantificadas ‘in vitro’ através da técnica de Western Blot. Por incrível que pareça, é possível fazer isso”, explica o professor Walz, pesquisador 1A do CNPq. “Então, este tipo estudo não tem por objetivo testar um tratamento novo, mas utilizar o material que está disponível durante a assistência médica na nossa rotina para pesquisa básica, feita para se entender os mecanismos envolvidos nessa doença de interesse”, contextualiza. De acordo com ele, isso é o que se chama de pesquisa translacional do tipo bed to bench, cuja tradução significa do leito do hospital para a bancada de experimentação.

    A detecção de marcadores de doenças neurológicas e psiquiátricas começou a ser possível por conta das cirurgias então realizadas no Hospital Universitário. O tecido cerebral dos pacientes foi rigorosamente estudado pela equipe e deu origem a um banco de dados. Os estudos investigam esses tecidos para compreender manifestações psiquiátricas nos pacientes, principalmente aquelas que envolvem a ansiedade e o medo aprendido, o stress pós-traumático. A pesquisa resultou em duas publicações na revista Molecular Psychiatry, do grupo Nature, periódico de alto impacto.

    Muitas das respostas levantadas pela equipe, entretanto, vieram de perguntas que surgiram ao longo da pesquisa – um trabalho que envolveu, além da entrevista com os pacientes que passaram pela cirurgia, uma série de experimentos em laboratório. Para entendê-los, é necessário, antes, identificar o medo, o medo aprendido e a ansiedade como emoções que podem ser, de alguma forma, rastreadas no cérebro humano.

    Emoções que deixam marcas

    As manifestações psiquiátricas do medo e da ansiedade são reconhecidas pela literatura e também nos relatos dos pacientes, mas suas marcas no cérebro humano também podem ser rastreadas a partir de pesquisas como a realizada pelo grupo de Walz.

    Sistema para Registro Eletrofisiológico para estudo de Populações Neuronais

    De difícil conceituação, essas emoções podem ser descritas de um modo metafórico. O medo, por exemplo, pode ser simbolizado por aquela sensação de ser surpreendido por um carro ao atravessar a rua. “Na realidade, o que essa pessoa sente é uma resposta do corpo a uma ameaça iminente: o medo é uma resposta do corpo e, ao mesmo tempo, do cérebro. O medo é uma resposta natural fundamental para a preservação da espécie”, resume. Já a ansiedade, segundo o professor, é uma preocupação com algo que não aconteceu, mas que o paciente imagina ou se preocupa que possa acontecer. Em alguns casos esta preocupação gera respostas no corpo que lembram inclusive as observadas quando uma ameaça é eminente – gerando a resposta de medo. “Apesar de diferentes definições, acredita-se que os circuitos relacionados à sensação de medo e ansiedade têm sobreposição dentro do cérebro”, diz.

    De acordo com o professor, a proximidade dos mecanismos que regem as sensações de medo e ansiedade sugeria que houvesse, também, uma semelhança com o estresse pós-traumático. Ele lembra que essa doença mobiliza a ciência por se tratar de um fenômeno ainda sem tratamento. Exemplos mais concretos seriam, por exemplo, uma situação de guerra, roubo ou violência sexual – quando a vítima retoma a sua vida com um histórico de lembranças e memórias que lhe causam prejuízos. “Embora exista uma certa relação entre o medo e ansiedade, os remédios que se usa para tratar a ansiedade não têm efeito sobre o medo aprendido, e portanto sobre o estresse pós-traumático. Então, essa é uma lacuna de entendimento dessas duas entidades que não tinha muita solução”, pontua o professor.

    Alterações no cérebro

    O professor lembra que o interesse era  investigar as alterações neuroquímicas que não são factíveis de serem estudadas em cadáver porque são extremamente sensíveis à falta de oxigênio e à falta de perfusão sanguínea do cérebro, inviabilizando estudos no tecido após a morte. “Antes da cirurgia, temos uma avaliação psiquiátrica bastante detalhada, com várias escalas. O psiquiatra aplica essas escalas, que guardam uma acurácia bem definida cientificamente não apenas para por diagnosticar depressão e ansiedade, mas também mensurar os níveis destes sintomas de uma forma objetiva, quantificável e reproduzível para aplicação em estudos científicos”, explica.

    A primeira constatação da equipe foi de que, nos pacientes cuja escala demonstrava maior ansiedade, uma determinada alteração neuroquímica no cérebro se repetia, exatamente em uma mesma estrutura estudada, a amígdala, localizada na profundidade da região temporal – logo a frente da orelha. “Nós encontramos uma modificação química no cérebro que tem um correlato importante no funcionamento cerebral, no funcionamento de neurônios, e que se correlacionava, de forma contrária, ao nível de ansiedade: então, quanto mais ansiedade o paciente tinha, menos daquele marcador apresentava o paciente na amígdala”.

    Implantação de microcânulas de infusão de fármacos no Sistema Nervoso Central

    Em um dos artigos publicados a partir do estudo, a equipe demonstrou essa associação do medo e ansiedade com uma determinada alteração na amígdala dos pacientes. Depois, o professor seguiu procurando respostas para inquietações a respeito do tratamento para essas doenças. A ideia, então, foi bloquear essa via a partir de experiências com ratos.

    Uma das tarefas comportamentais utilizadas foi o plus maze: um labirinto elevado para ratos tradicionalmente usado em pesquisas pré-clínicas com roedores, na área de ansiedade e medo. Nesta tarefa, o animal é colocado em uma plataforma de madeira em forma de cruz, elevada do chão. Um braço da cruz tem as paredes fechadas, e no outro a plataforma é aberta. A tendência dos animais é permanecerem na plataforma fechada e evitarem a aberta. A proporção de tempo nas duas plataformas é uma medida de comportamento de medo inato, análogo à ansiedade em humanos.

    O professor pontua que, nesta tarefa, se o animal é medicado com ansiolítico benzodiazepínico como por exemplo Rivotril, Valium, Lexotam ou análogos, a tendência é que ele permaneça mais tempo no braço aberto do que no fechado. “Então, por analogia, sabemos que esse teste tem uma certa relação com ansiedade. E percebemos que a relação que observamos nos pacientes na qual, , quanto mais ansioso o paciente menos daquele marcador neuroquímico apresentava, também se repetiu nos ratos, e na mesma estrutura cerebral”.

    O inibidor, entretanto, não causou nenhum efeito nos ratos com relação a ansiedade. Ainda buscando respostas para as emoções, a equipe decidiu, então, estudar o medo ao apresentar para o bicho uma ameaça real. A experimentação consistiu em medir o tempo de freezing (congelamento) do rato após a aplicação de um pequeno choque elétrico. “O tempo de congelamento é uma medida indireta de medo, quanto mais medo ele sente, mais tempo de congelamento”, explica o professor.

    De acordo com o professor, a expectativa da equipe era que o inibidor diminuísse o tempo de congelamento. “Então, a gente tinha um marcador que caía à medida que subia a ansiedade no ser humano e esse mesmo marcador também caía no rato”, lembra o professor. O mesmo marcador, no entanto, subia quando a atenção se voltava ao medo aprendido.

    Sabia-se que o mesmo marcador permeava a ansiedade no humano, ansiedade no rato e o medo no rato. Sabia-se, também, que ele não seria a causa e nem consequência da ansiedade no rato, porque os experimentos não demonstraram essa correlação. Por isso a equipe partiu para o estudo do medo.

    “Utilizando a abordagem da micro injeção intracerebral, em um grupo de animais injetamos só uma solução inerte no grupo controle e, no outro grupo, a gente injetou um inibidor da proteína quinase investigada. E aí a gente teve efeito espetacular: quando a gente coloca aquele inibidor, o rato simplesmente não congela”, explica Walz. Ou seja, os resultados indicaram que o marcador, mesmo sendo o mesmo para ansiedade no paciente e ansiedade e medo nos ratos, não apresenta potencial para ser utilizado no tratamento de ansiedade, mas é potencialmente um alvo terapêutico para medo aprendido.

    “Assim, embora a ansiedade e o medo apresentem certa sobreposição em termos de circuitos cerebrais e neuroquímica, nossos achados justificam, ao menos em parte, por que os tratamentos amplamente eficazes no tratamento da ansiedade não têm efeito no tratamento do estresse pós-traumático, que é um tipo de medo aprendido. “Então, por isso que esse artigo acabou tendo um impacto e a publicação numa revista importante”, explica Walz. “A gente espera, a partir de agora, continuar investigando outros marcadores de doenças psiquiátricas utilizando esta metodologia de pesquisa com o material da cirurgia de epilepsia”.

    Além dos resultados científicos sólidos capazes de ampliar a compreensão de mecanismos envolvidos com transtornos de ansiedade, estresse pós-traumático e da síndrome do pânico, o estudo também foi importante por aproximar grupos de excelência em pesquisa básica e clínica, resultando na criação de uma rede de cooperação interdisciplinar. O estudo também contribuiu para a internacionalização da UFSC por meio da interação com pesquisadores da Inglaterra e estados Unidos. Participaram do estudo os pesquisadores Cristiane Ribeiro de Carvalho, Mark Willian Lopes, Leandra Celso Constantino; Alexandre Ademar Hoeler, Hiago Murilo de Melo; Ricardo Guarnieri , Marcelo Neves Linhares , Zuner Assis Bortolotto , Rui Daniel Prediger , Alexandra Latini , Kátia Lin , Julio Licinio e Rodrigo Bainy Leal.

    Amanda Miranda/Jornalista da Agecom/UFSC

    Fonte: Notícias UFSC


  • Prêmio Pesquisa de Destaque: projeto colabora para edifícios mais sustentáveis e eficientes

    Publicado em 03/05/2022 às 14:05

    Entender, promover e disseminar estratégias e técnicas para o desenvolvimento de edifícios que sejam adequados ao clima no qual estão inseridos, que aproveitem a iluminação natural, com maior eficiência energética e menor impacto ambiental, que busquem a redução do desperdício de água tratada e que levem em conta as necessidades dos usuários. Esses são os principais objetivos do projeto Adequação climática e uso racional de água em edificações, coordenado pelo professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Enedir Ghisi e vencedor da categoria Pesquisa Aplicada do Prêmio Pesquisa de Destaque, organizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq/UFSC).

    Em andamento desde 2007, o projeto envolve uma ampla gama de assuntos que impactam diretamente o consumo de energia e a qualidade de vida das pessoas, incluindo desempenho e conforto térmico, aproveitamento da água da chuva, análise do ciclo de vida das construções, sistemas de iluminação integrados com a iluminação natural e comportamento do usuário. Nesses 15 anos, foram publicados mais de 140 artigos em revistas científicas e orientados mais de 150 estudantes e pesquisadores, da graduação ao pós-doutorado.

    “Já foram vários trabalhos sobre isso, e a gente já tem algumas conclusões dos trabalhos realizados. Já sabemos que as edificações, de fato, não podem ser construídas de qualquer jeito, que é o que vem sendo feito no Brasil o tempo inteiro, desde longa data. Projeta-se a edificação e ela é construída daquele jeito em qualquer clima. Isso é errado. Não tem como funcionar. Uma casa projetada para ser construída em Florianópolis deveria ser diferente de uma casa em Lages; ela deveria ser diferente de uma casa em Belém, no Norte do Brasil; ela deveria ser diferente de uma casa no litoral do Nordeste, por exemplo. Cada edificação deveria ter características diferentes para cada um desses climas e para qualquer outro clima que a gente tem. Então, quando vemos os programas governamentais por aí, financiando a construção do mesmo projeto em todo o Brasil, temos algo completamente inadequado”, salienta Enedir.

    Uma construção não apropriada ao clima local tem reflexos diretos no consumo de aparelhos como ar-condicionado ou ventilador, caso a pessoa tenha dinheiro para isso. “Senão ela vai morar numa casa onde ela vai sofrer mais, porque vai ser muito quente no verão, porque vai ser muito frio no inverno, e, se ela não tem recurso para comprar esses equipamentos, ela simplesmente vai sofrer lá dentro passando calor ou passando frio”, comenta o professor. O mesmo vale para outras questões, como a iluminação. Ambientes com bom aproveitamento de luz natural podem garantir a economia com iluminação artificial. “Qualquer tipo de edificação, uma casa, um prédio comercial, um prédio público, uma escola, assim por diante, todas elas deveriam levar isso em consideração”, enfatiza o docente.

    O tipo de parede, o modelo dos vidros, características das telhas, a cor da tinta – tudo isso se reflete no consumo de energia e no conforto dos usuários. Alguns exemplos de erros que, segundo Enedir, ainda se repetem bastante, apesar de serem simples de se resolver, são a aplicação de tons escuros nas fachadas e o uso de janelas sem proteção externa além do vidro, como venezianas e persianas de PVC.

    “Se é só a janela comum, pode ter muito mais ganho de calor no verão, porque não tem a barreira externa fazendo a proteção. Nas casas mais antigas, usava-se bastante a veneziana. Na casa dos meus pais, em Criciúma, tem veneziana, e é muito comum nas casas de lá, em várias casas no Sul do Brasil, ter aquela veneziana de madeira de abrir. A veneziana tem uma função muito boa, que é proteger contra o sol nos horários em que a pessoa não quer o sol. A gente tem ainda muitos prédios por aqui, os prédios mais antigos, principalmente, que têm as janelas sem proteção nenhuma. Isso é muito inadequado.”

    Algo semelhante acontece quando se usam tintas escuras. Assim como você sua mais se sai de camiseta preta num dia quente, casas ou prédios de cores escuras absorvem muito mais calor que edificações claras. “Isso vai se refletir depois internamente na edificação: os moradores vão sofrer mais ou menos. Ou se tiverem recursos para comprar ar-condicionado, eles vão acabar comprando ar-condicionado, porque o desempenho da edificação é ruim”, reforça Enedir.

    Projeto também inclui estudos em áreas públicas. Nas fotos, uma avaliação de sistemas de iluminação no campus da UFSC, em Florianópolis. Teste comparou lâmpadas a vapor de sódio, a vapor metálico e de LED. Fonte: dissertação de mestrado de Fabrícia de Oliveira Grando

    Aproveitamento de água da chuva

    Os estudos sobre uso racional da água tratada, aproveitamento de água da chuva e reutilização da água residual de processos domésticos como lavagem de louça e banho compõem outra importante linha do projeto. O foco é empregar a água da chuva e a água residual nos usos que não demandam água potável, como descarga, rega de jardim, etc. – o que pode representar uma fatia considerável do consumo total.

    Um levantamento realizado pelo grupo de Enedir em dez prédios públicos de Florianópolis indicou que chega a 77% o percentual de água utilizada que não precisaria ser potável. “Poderia ser água de chuva, por exemplo. A gente poderia também usar equipamentos economizadores de água para reduzir esse consumo. A porcentagem é muito alta”, afirma o pesquisador.

    Vale destacar que nem sempre é garantida a viabilidade econômica de se instalar sistemas para captação de água da chuva. “Vai depender muito de cada caso. Para uma mesma casa, por exemplo, pode ser viável ou inviável dependendo do consumo de água das pessoas lá dentro, além, claro, de outros parâmetros. Mas, se forem duas casas idênticas, em um mesmo lugar, para uma pode ser viável e, para a outra, não, porque em uma o consumo é diferente do da outra”, explica Enedir. Também pode ser bastante complexo determinar o tamanho do reservatório de água necessário para cada edificação.

    Foi justamente para ajudar nesse tipo de análise que o grupo desenvolveu o programa de computador Netuno. De uso gratuito, o software permite calcular a capacidade ideal de armazenamento e o potencial de economia de água, além de realizar análises econômicas, com estimativas precisas dos custos e economias envolvidos.

    Pavimentos permeáveis

    Um dos trabalhos mais recentes da equipe na área de economia de água envolve as pesquisas com pavimentos permeáveis para captação e armazenamento de água da chuva. Esses pavimentos são projetados em um sistema que conta com distintas camadas. A água que escoa sobre essa superfície, em vez de ir para a sarjeta, atravessa todos os níveis do pavimento até chegar a um reservatório específico, de onde é bombeada para outros reservatórios do edifício.

    Esquema de pavimento permeável e aproveitamento de água pluvial. Fonte: dissertação de mestrado de Lucas Niehuns Antunes

    “A gente já fez uma análise para o CTC [Centro Tecnológico da UFSC], por exemplo. Os estacionamentos ali ao redor seriam usados para esse fim, filtrando a água nas diferentes camadas. [A água] fica armazenada numa camada de baixo, dali, seria bombeada para um reservatório de água de chuva que ficaria na parte térrea da edificação, e, de lá, ela é bombeada lá para o alto, para outro reservatório de água de chuva, que é o que atende os aparelhos lá dentro da edificação, o vaso sanitário, o mictório e outros aparelhos em que a gente quiser fazer uso daquela água da chuva”, relata Enedir.

    “Os pavimentos que a gente já usa normalmente, sendo um pavimento permeável, ele poderia [ser aplicado para esse fim]. Esses pavimentos que a gente tem, por exemplo, aqui na UFSC, com as lajotas e alguns outros tipos de pavimentos, poderiam [ser utilizados], basta que a gente estude as camadas que compõem esse pavimento para ver o tipo de areia que se coloca, o tipo de brita, e assim por diante, para fazer a filtragem. Então, não é algo que implicaria em ter custos extras absurdos, é aproveitar o que já se tem”, complementa.

    Conforme afirmou o professor Vernon Phoenix, chefe do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da University of Strathclyde, na Escócia, na carta de recomendação dirigida aos avaliadores do Prêmio Pesquisa de Destaque, o trabalho tem potencial para aumentar drasticamente a quantidade de água que pode ser coletada, quando comparado à abordagem tradicional de se coletar a água da chuva dos telhados. A inovação, para ele, é particularmente valiosa onde a área do telhado é relativamente pequena em comparação à densidade populacional e é fundamental para combater a escassez de água causada pelas mudanças climáticas.

    Comportamento das pessoas

    Não importa quantos cálculos se façam, mesmo os mais refinados projetos podem fracassar completamente se não levarem em conta as pessoas que frequentarão o local. Por isso, o grupo de Enedir tem se dedicado, também, a estudar o comportamento do usuário e sua influência no consumo de energia, bem como busca sempre considerar essa perspectiva em suas análises.

    “O usuário tem um comportamento geralmente previsível, mas nem sempre. Então, se a gente projeta a edificação prevendo que o usuário vai estar lá dentro num determinado período, e ele não está lá dentro naquele determinado período, isso dá um resultado completamente diferente do que pode ter sido previsto originalmente”, comenta o docente. “Em grande parte dos casos, os profissionais projetam a edificação mas esquecem que tem pessoas que vão morar lá dentro ou que vão trabalhar naquele lugar ou que vão estudar naquela sala. Mas não deveriam, pois o comportamento das pessoas tem de ser levado em consideração”, adiciona.

    Em uma pesquisa recente, por exemplo, uma estudante de graduação orientada por Enedir avaliou o nível de satisfação de usuários de uma creche que recebeu a certificação Leed (Leadership in Energy and Environmental Design, ou Liderança em Energia e Design Ambiental, na tradução para o português), concedida por uma organização estadunidense. “Ela fez as análises nessa creche, comparando com outras, e o nível de insatisfação das pessoas é alto, porque não estão satisfeitas com a temperatura dos ambientes, porque não tem ar-condicionado em determinados ambientes, e aí a temperatura fica muito alta, porque tem ruído do trânsito ao redor, ou outros inconvenientes. O usuário é sempre um fator muito importante a ser considerado, e que nem sempre é”, frisa o pesquisador.

    Novos estudos e trabalho em equipe

    Como aponta Enedir, os assuntos abordados no projeto não se esgotam e envolvem discussões sempre atuais e necessárias. Além disso, com as mudanças climáticas, projetos voltados à economia de energia e de água se tornam fundamentais, uma vez que devemos enfrentar temperaturas cada vez mais extremas, e crises hídricas tendem a ser mais constantes.

    “É claro que algumas coisas vão mudando à medida que a gente percebe que novos equipamentos e novas tecnologias vão sendo desenvolvidas, a gente vai percebendo que tem que de novo testar e fazer análises com relação àqueles equipamentos e àqueles parâmetros que vão sendo colocados no mercado. É uma área de pesquisa permanente. Envolve a edificação, envolve as pessoas, envolve o clima, e isso tudo é objeto permanente de investigação”, enfatiza o professor.

    Enedir ressalta, ainda, que trabalhos como esse não são feitos de maneira individual, mas resultam de esforços de múltiplas pessoas. “Tenho dezenas de doutorandos, mestrandos, alunos de iniciação científica, de TCC, que me ajudam a desenvolver os projetos. Já tive vários e tenho ainda vários no momento. Sem eles, uma pessoa só não conseguiria fazer. A gente depende enormemente da contribuição de todos os alunos, e eu sou enormemente grato a todos os orientandos que tenho e que já tive, porque eles que me ajudam a fazer isso tudo.”

     

    Camila Raposo/Jornalista da Agecom/UFSC

     

    Fonte: Notícias UFSC


  • Dia Internacional da Mulher: UFSC lança segunda edição do prêmio Mulheres na Ciência – Especial Cientistas Negras

    Publicado em 08/03/2022 às 09:52

    A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por meio da Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq), lança neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Prêmio Mulheres na Ciência – Especial Cientistas Negras da UFSC. As inscrições estão abertas e seguem até 8 de junho, pelo site.

    >> Professoras da UFSC participam de programação da SBPC para o 8 de março

    O prêmio tem como propósito estimular, valorizar e dar visibilidade às mulheres da UFSC que fazem pesquisas científicas, tecnológicas e inovadoras. O objetivo é divulgar as pesquisas e pesquisadoras, e assim inspirar a comunidade científica interna e externa nas diferentes áreas do conhecimento e contribuir para diminuir a assimetria de gênero na ciência. Nesta edição em especial, o prêmio se dedica a dar visibilidade às pesquisas realizadas por mulheres cientistas negras, em reconhecimento pelas grandes contribuições pouco divulgadas.

    >> Live discute a presença das mulheres na ciência nesta quarta-feira, 9 de março

    “A ideia de tornar essa segunda edição do prêmio em uma edição especial para as cientistas negras surgiu a partir de uma perspectiva de equidade: já está bem estabelecido  que quanto maior a diversidade em grupos de pesquisa, maior o impacto científico da produção, oferecendo respostas mais robustas aos problemas pesquisados”, salienta a superintendente de Projetos da Propesq, Maique Weber Biavatti.

    “Na primeira edição do prêmio, no ano passado, tivemos 72 inscritas, e apenas uma delas era autodeclarada negra. Sabemos que há mais docentes e pesquisadoras na UFSC que se enquadram neste perfil, portanto esta edição é importante para trazer esse recorte específico. Será uma forma de remover possíveis obstáculos nas carreiras das pesquisadoras e tornar a ciência feita na UFSC mais receptiva à diversidade, sendo que a ciência, infelizmente, ainda apresenta pouca diversidade”, ressalta a gestora da Propesq.

    Segundo o Observatório UFSC, as mulheres são maioria entre TAEs e docentes. Elas são 2.991 e eles 2.495. Entre docentes, a maioria ainda é de homens – 1.597 enquanto elas são 1.290. Entre as TAEs, as mulheres lideram – são 1.701 enquanto que os homens são 1.348. No entanto, em 2021, a Propesq levantou que, apesar de ser a maioria numérica entre servidores, as mulheres são minorias nos cargos de gestão e entre bolsistas de produtividade em pesquisa. Na pesquisa, as mulheres são minoria chefiando coordenadorias de Pós-Graduação, e como líderes de grupos certificados.

    A Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidades (Saad) da UFSC auxiliou a Propesq na redação do Edital, e apoiou a ideia. Segundo a secretária da Saad, Francis Tourinho, é sabido o quanto a estrutura da sociedade influencia para que um número ainda pequeno de mulheres opte por carreiras na Ciência, e para as mulheres negras ainda é um caminho mais difícil. “Essas mulheres enfrentam a discriminação dupla: o racismo e o machismo. Por isso, reconhecê-las é uma forma de dar visibilidade e ainda de falar não ao racismo e misoginia da academia”, pontua a gestora, que é professora e pesquisadora na UFSC e também é uma mulher negra.

    “Eu vejo que estamos escondidas pela estrutura que a sociedade nos coloca, na posição de subalternidade. A importância de ter equidade, inclusão e diversidades no meio acadêmico chama para o destaque estas mulheres que fazem ciência, e que muitas vezes são invisíveis. Sou pesquisadora DT/CNPq [Bolsista de Produtividade em Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora (DT), financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)] há algum tempo, mas quem aparece são as pesquisadoras brancas que recebem PQ [Bolsa de Produtividade em Pesquisa] e DT. Mesmo sendo DT, sempre não será o suficiente. Por isso a relevância de um prêmio como  o ‘Mulheres na Ciência’, em meio à realidade incipiente de reconhecimento e incentivo na ciência”, complementa Francis.

    O pró-reitor de Pesquisa, Sebastião Soares, lembra que, em 2021, quando da primeira edição, buscou-se inovar, premiando mulheres por seus resultados. Desta vez, ressalta o gestor, a Pró-Reitoria foi além. “É um caminho que escolhemos trilhar, de trazer a atenção para as questões de equidade na ciência, para além de investir e valorizar quem faz pesquisa na UFSC. Queremos trazer reflexão e consciência também na realidade que se enfrenta no ambiente acadêmico”, pontua.

    O reitor Ubaldo Cesar Balthazar destacou o ineditismo de uma iniciativa como essa na UFSC. “Já era tempo de buscar reconhecer nossas cientistas com ações como o Prêmio Mulheres na Ciência. Além do reconhecimento pessoal e da divulgação de suas pesquisas, é uma pequena reparação que a UFSC pode oferecer às suas cientistas negras por anos em que se deixou de olhar para as nossas diversidades e como eram tratadas. Espero que essa iniciativa possa trazer mais visibilidade e incentive que tenhamos mais cientistas de destaque para a nossa universidade. Creio que seja muito simbólico que seja lançado no Dia Internacional da Mulher, uma data mundialmente marcada pela luta por equidade”, disse.

    O Prêmio

    A edição de 2022 do Prêmio Propesq Mulheres na Ciência tem inscrições abertas de 8 de março a 8 de junho de 2022. Podem participar mulheres pesquisadoras do quadro de pessoal permanente da UFSC, sejam professoras ou técnicas-administrativas em Educação. O prêmio será concedido em três categorias: Júnior (pesquisadoras que obtiveram seu doutorado após 31/12/2015); Plena (para aquelas que obtiveram seu doutorado entre 31/12/2000 e 31/12/2015); e Sênior (mulheres que que obtiveram seu doutorado antes de 31/12/2000).

    Será selecionada uma pesquisadora por categoria, em cada uma das três grandes áreas do conhecimento: Humanidades; Vida; Exatas e da Terra. A premiação consiste de um diploma e de um vídeo, a ser realizado pela Agência de Comunicação (Agecom) e TV UFSC para divulgação científica.

    Podem propor indicações para o prêmio a própria interessada em concorrer; departamentos ou programas de pós-graduação da UFSC; ou ex-orientados ou orientandos da pesquisadora. O júri do prêmio será composto por cinco membros, presidido por um representante da Propesq, três pesquisadores do CNPq nível 1 externos à UFSC, e um representante da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). Os membros do júri não devem ter histórico de colaboração ou laços familiares com as indicadas.

    Cronograma

    Período de inscrições: 8 de março a 8 de junho de 2022
    Como se inscrever: siga o passo a passo no Portal de Atendimento Institucional
    Divulgação das selecionadas: agosto de 2022
    Cerimônia de entrega do prêmio: 11 de fevereiro de 2023

    Mais informações: premiospropesq.ufsc.br
    Saiba mais:
    Conheça as vencedoras do Prêmio Mulheres na Ciência 2021

     

    Fonte: Notícias UFSC


  • 2ª Edição – Atualizações sobre o Prêmio Especial Cientistas Negras da UFSC

    Publicado em 07/03/2022 às 13:27

    ~~~~Atualização em 01/11/2022~~~~

    A Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação torna público o resultado do Prêmio Propesq – MULHERES NA CIÊNCIA – 2ª edição – ESPECIAL CIENTISTAS NEGRAS DA UFSC.

     

    ~~~~Atualização em 09/06/2022~~~~

    A Pró-reitoria de Pesquisa prorroga as inscrições do Prêmio Especial Cientistas Negras da UFSC. As inscrições estão abertas e seguem até 30 de junho.

    Acesse nos links o novo cronograma: Alteração de Cronograma

     

    ~~~~Atualização em 08/03/2022~~~~

    A Pró-reitoria de Pesquisa publica o regulamento e as inscrições do Prêmio Especial Cientistas Negras da UFSC. Acesse nos links:

     

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    A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por meio da Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq), lança neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Prêmio Mulheres na Ciência – Especial Cientistas Negras da UFSC. As inscrições estão abertas e seguem até 8 de junho, pelo site.

    A edição de 2022 do Prêmio Propesq Mulheres na Ciência tem inscrições abertas de 8 de março a 8 de junho de 2022. Podem participar mulheres pesquisadoras do quadro de pessoal permanente da UFSC, sejam professoras ou técnicas-administrativas em Educação. O prêmio será concedido em três categorias: Júnior (pesquisadoras que obtiveram seu doutorado após 31/12/2015); Plena (para aquelas que obtiveram seu doutorado entre 31/12/2000 e 31/12/2015); e Sênior (mulheres que que obtiveram seu doutorado antes de 31/12/2000).

    Será selecionada uma pesquisadora por categoria, em cada uma das três grandes áreas do conhecimento: Humanidades; Vida; Exatas e da Terra. A premiação consiste de um diploma e de um vídeo, a ser realizado pela Agência de Comunicação (Agecom) e TV UFSC para divulgação científica.

    Podem propor indicações para o prêmio a própria interessada em concorrer; departamentos ou programas de pós-graduação da UFSC; ou ex-orientados ou orientandos da pesquisadora. O júri do prêmio será composto por cinco membros, presidido por um representante da Propesq, três pesquisadores do CNPq nível 1 externos à UFSC, e um representante da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). Os membros do júri não devem ter histórico de colaboração ou laços familiares com as indicadas.

    Cronograma

    Período de inscrições: 8 de março a 8 de junho de 2022
    Como se inscrever: siga o passo a passo no Portal de Atendimento Institucional
    Divulgação das selecionadas: agosto de 2022
    Cerimônia de entrega do prêmio: 11 de fevereiro de 2023

    Mais informações: propesq@contato.ufsc.br

     

     


  • 1ª Edição – Atualizações sobre o Prêmio Pesquisa de Destaque

    Publicado em 07/03/2022 às 13:24

    ~~~~~Atualização em 06/12/2021~~~~

    A Pró-reitoria de Pesquisa torna público o relatório da comissão julgadora do Prêmio Pesquisa de Destaque.

    ~~~~~Atualização em 02/07/2021~~~~

    A Pró-reitoria de Pesquisa informa que estão abertas as inscrições para o Prêmio Pesquisa de Destaque.

    Inscrições: Portal de Atendimento Institucional

    ~~~~~Atualização em 28/06/2021~~~~

    A Pró-reitoria de Pesquisa publica o regulamento do Prêmio Pesquisa de Destaque e o Anexo I (editável). Acesse nos links:


  • Prêmio Mulheres na Ciência: Regina Peralta Muniz Moreira

    Publicado em 26/11/2021 às 13:37

    Em 08 de setembro de 2021, a professora Regina de Fátima Peralta Muniz Moreira participava como avaliadora de uma banca de defesa de doutorado em Engenharia Química da Universidade de São Paulo (USP). Enquanto conversava, ainda informalmente, com outro docente que também fora escalado como avaliador do trabalho, ele lhe disse: “Regina, você não vai se lembrar, mas você me deu aula particular.” Luiz Mário de Matos Jorge, atualmente professor do Departamento de Engenharia Química da Universidade Estadual de Maringá (UEM), havia sido um de seus alunos nas aulas particulares que ela começou a oferecer quando ainda era adolescente. 

    “Fiquei muito emocionada, porque eu realmente não me lembrava. Tive todo tipo de aluno nas aulas particulares e foi emocionante constatar que a educação realmente transforma. Ele era um menino, quando dei aulas particulares, e hoje é um professor universitário, uma pessoa que já viajou o mundo e que também está transformando outras vidas. Isso é muito legal”, relembra ela comovida. Regina, que é hoje professora do Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi uma das ganhadoras do Prêmio Mulheres na Ciência 2021, promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq/UFSC). Ela foi vencedora da área de Ciências Exatas e da Terra na categoria Sênior, voltada a pesquisadoras que ingressaram na UFSC até o ano 2000.

    A vida de Regina também foi, seguramente, transformada pela educação. Desde a infância, seus pais, Antonio e Marianna, estavam sempre estimulando ela e os irmãos a estudarem: “Eu era a tradicional nerd e nunca tive vergonha disso. Pelo contrário, sempre achei muito legal, porque isso era muito valorizado no meu ambiente familiar. Meus pais não tiveram a oportunidade de estudar e minha mãe passou a vida inteira falando de seu desejo, de sua vontade de estudar. Ela sempre soube que, através da educação, a mudança de vida é gigante.” Mas como uma mulher que nasceu no início do século XX, no interior do Paraná, a mãe de Regina não teve essa oportunidade. E foi exatamente por isso que Marianna fez questão de incentivar os filhos a percorrerem o caminho da educação.

    “Nós somos em quatro irmãos, três mulheres e um homem. Então meus pais, que não tiveram estudo, acabaram sendo nossos ‘orientadores’ de mestrado, de doutorado, de pós-doc… Entendemos muito bem o valor da educação, aprendemos isso em casa.” Para a alegria dos pais, todos os quatro se tornaram professores universitários. A irmã mais nova de Regina, Rosely Aparecida Peralta, é professora no Departamento de Química da UFSC. A mais velha, Rosane Marina Peralta, é docente do Departamento de Bioquímica da Universidade Estadual de Maringá (UEM). O irmão, Antonio Carlos Peralta, foi professor de Engenharia Civil também da UEM.

    “Eu trouxe isso pra minha vida, essa convicção de que a educação modifica a sociedade. Não existe outro caminho que seja tão transformador quanto a educação”, afirma Regina que, assim como seus pais, também fez questão de estimular seus dois filhos a prosseguirem nos estudos. Seu filho mais novo, Rodrigo Peralta Muniz Moreira, seguiu os seus passos: fez graduação em Engenharia Química na UFSC, cursou mestrado na UFRJ e acabou de concluir o doutorado na Loughborough University, na Inglaterra. O mais velho, Rafael Peralta Muniz Moreira, cursou Engenharia Mecânica, optou por trabalhar na indústria, mas recentemente retornou à academia para fazer um mestrado.

    Trajetória

    Regina conta que, quando jovem, não estava em seus planos ser professora universitária. Mas sem perceber, ela já estava traçando esse caminho. Ainda no ensino fundamental, quando tinha apenas 12 anos, começou a dar aulas particulares para crianças e adolescentes. Por se destacar entre as melhores alunas da turma, ela tinha sempre novos alunos e desenvolvia a atividade com prazer. Quando prestou vestibular, passou em primeiro lugar geral na UEM. Escolheu Engenharia Química movida pela vontade de fazer algo aplicável, prático.

    Regina se formou aos 22 anos, já com casamento marcado e mudança programada para Florianópolis, para acompanhar o marido. Como ainda não conhecia a cidade e não tinha perspectiva de emprego, decidiu que faria mestrado na UFSC. Coincidentemente, naquele momento abriu um concurso para docente do curso de Engenharia Química, que havia sido recém-criado: “O curso não tinha formado nem a primeira turma ainda e estava com falta de professores. Eu ainda não planejava ser professora, mas como naquela época podíamos fazer concurso sem ter feito mestrado e doutorado, resolvi aproveitar a oportunidade.” Aprovada em todas as provas, ela ingressou simultaneamente no mestrado e na carreira docente. Logo nos seus primeiros meses na UFSC, em 1983, soube que este seria o caminho que seguiria profissionalmente: “Eu pensei: era aqui mesmo que eu deveria estar. Estou feliz, é isso o que quero fazer na minha vida.”

    Regina fez o mestrado e doutorado no Programa de Pós-graduação em Química (PPGQ/UFSC), orientada por Juan Jacob Eduardo Humeres Allende. Ainda antes do doutorado, nasceram seus dois filhos. Tornar-se mãe foi, para ela, uma experiência extremamente gratificante e não comprometeu de forma alguma sua carreira como pesquisadora: “A primeira infância dos meus filhos foram anos extremamente felizes. Eles vinham comigo pra UFSC e tínhamos uma rotina muito bem planejada, com tudo em seu lugar. Eu nasci para ser mãe, por isso me sentia tão feliz. Esse período da minha vida foi muito bom.”

    Em 1998, alguns anos depois de concluir o doutorado, ela partiu para sua primeira experiência como pesquisadora fora do país: um estágio pós-doutoral na Universidade do Porto, em Portugal. Foi acompanhada de seus dois filhos, que na altura tinham 9 e 11 anos. Seu supervisor de pós-doutorado foi o professor Alírio Egídio Rodrigues, reconhecido internacionalmente em sua área de atuação. “Minha experiência em Portugal foi muito boa. Estar lá, com um pesquisador conhecido no mundo inteiro, foi para mim um divisor de águas. Eu saí de uma posição de orientada e supervisionada para me tornar líder de um grupo de pesquisas, orientadora de mestrado e doutorado. Por isso o pós-doutorado foi tão importante para mim.”

    O professor Alírio, segundo ela, lhe deu total liberdade, o que lhe permitiu expandir seus horizontes de pesquisa. “Depois dessa experiência no pós-doc, percebi que tínhamos que sair daqui, ir para outros lugares. No nosso laboratório, desde muito cedo, começamos a fazer propostas de projetos com outros países.” Seu grande parceiro de pesquisas sempre foi o professor Humberto Jorge José, que se aposentou em 2014. Até então, os dois dividiam a coordenação do Laboratório de Energia e Meio Ambiente (LEMA), vinculado ao Programa de Pós-graduação em Engenharia Química (PósENQ/UFSC). “Fizemos parcerias com a Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Espanha, Portugal. Essas instituições estrangeiras nos ajudaram a ter mais visibilidade e nos levaram mais perto das fronteiras de conhecimento.”

    Muitos de seus orientandos foram para esses países fazer estágios de pesquisa, doutorado sanduíche ou pós-doc. “Desde minha experiência em Portugal, comecei a incentivar muito meus alunos a também estudarem fora. Essas oportunidades abrem nossa mente e nos libertam dos nossos medos. Ir para fora nos mostra como temos muitas possibilidades de pesquisa. Podemos fazer o que fazem em qualquer outro país, desde que não nos intimidemos. Por isso sempre fiz tanta força para que todos os meus alunos de doutorado tivessem uma experiência fora do país. Como foi transformador para mim, eu achei e continuo achando que pode ser transformador para todas as pessoas.”

    Um dos momentos mais marcantes de sua carreira ocorreu quando ela submeteu um de seus primeiros artigos como pesquisadora independente, assinado com Ticiane Sauer, primeira autora do trabalho e sua orientanda de mestrado. “O artigo era sobre fotocatálise, que é um tema pelo qual sou apaixonada. Nós o submetemos a um congresso da área e o presidente do comitê científico nos retornou com críticas que me deixaram muito chateada.” Mas em vez de se resignar, Regina decidiu responder-lhe refutando, minuciosamente, cada uma das críticas. “Eu realmente acreditava no que tínhamos feito. Então fiquei trabalhando até tarde da noite e fiz um artigo de revisão só para rebater tudo que ele dizia.”

    Segundo Regina, o avaliador argumentava que determinado modelo matemático que ela utilizava não funcionava. Mas ele já havia sido testado em laboratório e ela sabia que dava certo. “Eu tinha proposto algo que ninguém no Brasil usava ainda. Daí lhe enviei uma resposta muito bem embasada cientificamente, com toda a literatura estrangeira que conhecia, de pesquisadores de renome, que já discutiam essa possibilidade.” Depois de rebater seus argumentos, o pesquisador lhe pediu desculpas e disse que iriam considerar o trabalho. “Eu falei então: ‘Não estou pedindo reconsideração, só estou explicando o meu ponto de vista.’” A essa altura, Regina já desistido de participar do congresso e decidido submeter o trabalho para uma revista científica.

    O artigo Photocatalytic degradation of reactive dye on TiO2 slurry reactor foi então publicado, em 2002, no periódico inglês Journal of Photochemistry and Photobiology. E veio a ser seu artigo mais referenciado: em novembro de 2021, o trabalho já havia sido citado 432 vezes. “Esse foi um marco muito importante pra mim e estou sempre contando essa história para meus alunos. Eu uso como exemplo, porque já vi muita gente se intimidar quando recebe uma resposta negativa. E sei que não é fácil, isso mexe com nossa autoestima. Mas nossa melhor alternativa não é chorar, mas sim resistir a cada vez que a vida nos disser um ‘não’.”

    Para Regina, as críticas são uma oportunidade de aprendizado. “Às vezes a crítica é dura, mas podemos encarar isso como uma chance de explicar melhor o que estamos propondo, de sermos mais convincentes. Pode ser que não tenhamos sido mesmo claros o suficiente, mas não devemos levar para o lado do pessoal. Todos nós temos falhas. Reconhecer isso nos torna mais fortes, mais valentes.”

    Há cerca de cinco anos, após a aposentadoria de seu parceiro de pesquisa, Humberto Jorge José, Regina passou a desenvolver alguns projetos com suas duas irmãs, algo que não havia considerado até aquele momento. Coincidentemente, suas irmãs também estavam vivendo algo parecido. “Minha irmã Rosely Aparecida Peralta trabalhou a vida inteira com o professor Ademir Neves, que é uma referência nacional e internacional na Química. Ele também havia se aposentado recentemente. E o mesmo ocorreu com minha irmã Rosane Marina Peralta, que é professora da UEM. Então nós três começamos a trabalhar juntas.” Durante a pandemia, a afinidade entre elas se fortaleceu e hoje elas já têm vários trabalhos publicados em conjunto. “Cada uma tem o seu olhar para o mesmo problema, o mesmo assunto. Acho que temos ido bem.”

    Apesar de seguir motivada para a pesquisa, Regina confessa que está desesperançosa com a atual conjuntura do país e a crescente desvalorização da educação. “Eu não queria sentir isso nem ter que admitir isso. Mas sinto que estamos vivemos um retrocesso, com muitas coisas andando para trás. Já estivemos muito melhor.” Em 2023, Regina completará 40 anos como docente da UFSC. No início da década de 1980, as condições de pesquisa eram muito precárias, mas isso não chegava a ser desestimulante: “Quando eu cheguei aqui, ainda estávamos realmente engatinhando. Eu fui a 15ª professora de um departamento que estava se formando. Um pouco antes, o curso esteve ameaçado de fechar por falta de professores. Era ainda um embrião, tudo estava começando. Mas eu e meus colegas éramos todos muito jovens e o que sobrava era energia.”

    Apesar de todas as adversidades iniciais, aqueles jovens docentes estavam realmente dispostos a ‘fazer acontecer’. E toda essa dedicação gerou resultados: o curso de Engenharia Química da UFSC se tornou um dos mais conceituados do país, com um Programa de Pós-graduação Conceito 7 na CAPES. “Não tinha tempo ruim. Isso nos tornou um grupo de pesquisadores excepcionalmente fortes. De um curso de graduação que começou enfrentando dificuldades, criamos um doutorado em nível de excelência. E desde o início, quando ainda era bem menos comum, tínhamos essa visão de internacionalização.”

    Para Regina, o que foi realmente crucial naquele momento foi algo que está em falta hoje: esperança. “O que tínhamos no início era muita esperança. Agora, o que eu sinto é que as mangueiras estão sendo esvaziadas, estranguladas. Estão literalmente fechando as torneiras e está ficando cada vez mais difícil ter uma perspectiva de que esse momento vai passar. Mas não queremos e não vamos desistir. Pelo contrário: vamos persistir até o limite. Ainda não sei qual será o caminho, só sei que teremos que encontrar uma saída”.

    Daniela Caniçali/Jornalista da Agecom/UFSC

    Fonte: Notícias UFSC


  • Prêmio Mulheres na Ciência 2021

    Publicado em 25/11/2021 às 08:29

    A Pró-reitoria de Pesquisa iniciou a entrega das medalhas do Prêmio Mulheres na Ciência no último dia 14/10/2021, com a presença da pesquisadora laureada, do pró-reitor de pesquisa – professor Sebastião Roberto Soares – e da superintendente de projetos – professora Maique Weber Biavatti.

    A lista com o resultado final está neste link.

     


  • Último seminário do ciclo ‘Mulheres na Ciência’ discute políticas científicas

    Publicado em 24/11/2021 às 14:05

    O Espaço Cultural Gênero e Diversidades do Instituto de Estudos de Gênero (IEG) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com o Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades e a Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq), promove, na próxima segunda-feira, 29 de novembro, o último encontro do I Ciclo de Seminários Temáticos: Mulheres na Ciência. Com o tema Mulheres na política científica: associações científicas e agências de financiamento, o evento tem início às 18h30 e transmissão pelo Canal do IEG no YouTube.

    Participam do seminário as pesquisadoras Bárbara Segal Ramos, docente do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC e secretária adjunta da Secretaria Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de Santa Catarina (SBPC-SC); Betina Stefanello Lima, analista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ); Deborah Bernett, gerente de Ciência e Pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc); e Débora Peres Menezes, professora do Departamento de Física da UFSC e presidente da Sociedade Brasileira de Física (SBF). A mediação do debate será feita pela professora do Departamento de Antropologia da UFSC Miriam Pillar Grossi.

    Fonte: Notícias UFSC


  • Prêmio Mulheres na Ciência: Cristina Scheibe Wolff

    Publicado em 24/11/2021 às 10:05

    Em 2022, a historiadora Cristina Scheibe Wolff completa 30 anos como professora do Departamento de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina (CFH/UFSC). Com uma trajetória acadêmica marcada por significativas contribuições ao debate sobre questões de gênero no campo da História, Cristina é uma das homenageadas pelo Prêmio Mulheres na Ciência 2021, promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq/UFSC). Ela foi a vencedora na área de Ciências Humanas da categoria Sênior, voltada a pesquisadoras que ingressaram na UFSC até o ano 2000.

    Para quem sempre buscou ressaltar a relevância de dirigirmos um olhar para a História a partir de uma perspectiva feminista, essa conquista revela-se ainda mais especial: “Eu me senti muito honrada e feliz, fiquei muito emocionada por ter sido uma das escolhidas. Esse prêmio mostra as mulheres como protagonistas da ciência, chama a atenção de todos que fazem parte da UFSC, professoras e professores, estudantes e servidores técnicos, além da própria sociedade, para a importância da atuação das mulheres como pesquisadoras”, avalia Cristina. Para ela, ao destacar a carreira das mulheres cientistas e sua presença no campo acadêmico, o prêmio é um incentivo para as jovens cientistas: “É um estímulo para que continuem pesquisando, apesar da situação tão difícil que o campo científico está vivendo no Brasil. Ao perceberem que outras mulheres fizeram suas carreiras como cientistas e seguem contribuindo para a produção científica no Brasil, elas são incentivadas a trilhar o mesmo caminho, a pensar que a carreira acadêmica é uma possibilidade.”

    Dar visibilidade à presença das mulheres não apenas no campo acadêmico, mas nos mais diversos espaços de atuação, vivência e transformação da sociedade é uma característica intrínseca ao trabalho que Cristina vem desenvolvendo na UFSC desde seu ingresso como docente, em 1992. “Ao longo da história, as mulheres sempre foram invisibilizadas. A grande questão não é que não existiam mulheres fazendo ciência. Geralmente, as estruturas sociais contribuíram para que as mulheres fossem invisibilizadas e esquecidas, nos mais diversos campos intelectuais. Quando pensamos em grandes escritores de tempos passados, por exemplo, já falamos automaticamente em escritores, no masculino. Pensamos logo nos homens, dificilmente nos lembramos das mulheres que também foram grandes escritoras.”

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  • Prêmio Mulheres na Ciência: Ana Lúcia Severo Rodrigues

    Publicado em 22/11/2021 às 10:52

    Ao longo das últimas duas semanas, a Agência de Comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina (Agecom/UFSC) tem publicado reportagens sobre as vencedoras do Prêmio Mulheres na Ciência 2021, promovido pela Pró-Reitoria de Pesquisa (Propesq). Na sétima matéria da série, conheça a trajetória e o trabalho de Ana Lúcia Severo Rodrigues, contemplada na Categoria  Sênior – voltada a docentes que ingressaram no quadro permanente da UFSC antes de 31 de dezembro de 2000 –, na área de Ciências da Vida.

    Ana Lúcia é professora do Departamento de Bioquímica e dos programas de pós-graduação em Bioquímica e Neurociências e bolsista de produtividade em pesquisa nível 1B do CNPq. Coordenadora do grupo de pesquisa Neurobiologia da depressão, tem se dedicado a compreender os mecanismos bioquímicos e fisiológicos envolvidos nessa enfermidade e na regulação do humor, com estudos que podem colaborar com o desenvolvimento de novas possibilidades de tratamento e prevenção da doença.

    Apesar de sua longa carreira dedicada à pesquisa e ao ensino (são quase 30 anos somente como professora na UFSC) e de sua extensa produção (mais de 200 artigos publicados, de 8 mil citações e de 50 alunos de mestrado e doutorado orientados), a docente recebeu com surpresa o anúncio da premiação: “Quando fiquei sabendo, acabou sendo, de certa forma, uma notícia muito impactante. Não estava exatamente esperando que fosse acontecer, porque a gente sabe que tem excelentes profissionais. Eu fiquei muito feliz, com certeza. É um reconhecimento da trajetória acadêmica e principalmente da dedicação que a gente tem à ciência e às atividades de pesquisa e de ensino”.

    Para ela, prêmios como esse, voltados ao reconhecimento de mulheres cientistas, além de dar visibilidade aos trabalhos das pesquisadoras, podem servir de estímulo a outras meninas e mulheres. “Acaba sendo uma iniciativa que ajuda a promover a produção científica feminina e a atrair e incentivar jovens talentosas a também ingressarem no mundo da ciência. Sempre acho que têm muitas jovens que são interessadas pela pesquisa, mas, até pela pesquisa às vezes não ter tanta notoriedade, principalmente essa produção científica feminina, elas não se incentivam. E acho que tem muitas jovens que são curiosas, que são interessadas e que poderiam ter uma carreira científica de sucesso se as oportunidade forem dadas”, comenta.

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